Um comentário em “PRINCIPAIS REIVINDICAÇÕES

  1. Eu só queria ser feliz. Sou, mas não estou. Quando as pessoas me convocavam para as etapas iniciais da campanha salarial eu não ia; não queria saber. Dizia eu que tinha “o direito a não me iludir com o Procon”. E seguia, na minha.
    Outra coisa que eu citava é um mantra que está colado num post-it na retaguarda da Sé para nortear meu trabalho na Fundação: “É melhor ser feliz do que ter razão”.
    Um dos meus colegas de trabalho, Thiago, egresso do concurso de 2014, talvez pelo frescor da novidade, sempre dizia que poderíamos nos unir como categoria, e que se “todo mundo” se unisse em uma greve geral, os poderosos teriam de ceder. “Utópico”, disse eu, um esquerdista. Eu falava para ele que essa união não existiria poque os interesses individuais prevaleciam sempre, como por exemplo a diferença do que tinha a perder um técnico I e um técnico 2, 3 ou 4. Fora coisas como as tradicionais divisões manhã-tarde ou postos-Barra Funda.
    Mas aí veio a campanha 2014-2015 na qual não pagariam os retroativos (coisa que nunca aconteceu) e que boatos diziam que não haveria reajuste.
    Achei que assim já era demais, que deveria esquecer a ideia de que nada poderia ser feito e fui para a greve. E achei que o Thiago tinha razão. E foi bonito no começo. Praticamente todo mundo aderiu, até porque desta vez todo mundo seria afetado, diferente de quando alguns perdiam menos que outros e ou debandavam ou não aderiam.
    Mas fomos para a luta. 42 dias. Várias manifestações, apitaços, faixas, caminhadas, palavras de ordem, adesão de outros companheiros em campanha de outros órgãos. Rostos antigos, rostos novos, totalmente desconhecidos. Alguns almoços e happy hours pós-manifestações que ninguém é de ferro. Toda essa parte foi o melhor. Ousei ter esperança, veja só.
    Mas aí foram acontecendo as negociações e um endurecimento, uma estratégia utilizada por esse governo maldito do estado que nos é imposto pela “ditadura da maioria”, como diria Tocqueville. Uma horda que faz ajuste fiscal, “xoque de jestão” à base do salário do funcionalismo público. Que se locupletam com o momento grave que o País atravessa para aprofundar o que sempre fizeram: “não gostamos de gente; gostamos de p(h)oder”.
    O espírito que entrou naquela quadra hoje era para escolha de um enredo que já tinha visto outras vezes.
    Logo nas duas primeiras falas, um tom de velório dos representantes da Comissão de Greve e vai aqui um desabafo: até Hitler tinha total noção do poder do discurso. Se querem passar a ideia de que o caminho a seguir não é o que queríamos, mas o que restou, digam isso com F-Ú-R-I-A, digam isso indignados, digam isso com o fígado, mesmo que conformados. Não naquele tom de velório a que assisti. Não naquela voz baixa. Não tentando se convencer daquelas palavras naquele momento ao invés de já tê-las aceitado, mesmo que ruins. Somos adultos, aguentamos a honestidade de palavras difíceis. Faltou apenas um caixão em quadra com a esperança dentro dele.
    Nem vou entrar no mérito da ideia de “vitória” que tentaram nos repassar. Uma vitória em que mudarei de faixa e passarei a pagar 11% de INSS e consequentemente terei 3,22% de aumento. Tive de voltar para casa e quando minha mãe perguntou o que conseguimos tive de dizer, Nada. E ainda terei de pagar 5 dias de trabalho.
    Cabe aqui um aparte com pelo menos dois companheiros da associação, sendo um deles o Manoel, que visivelmente pra mim sabia que aquilo não era o esperado, mas que pelo menos expôs com paixão que o resultado seria o melhor para nós, um passo para trás para dar dois para a frente. Acredito nele, apesar de ter votado pela continuidade. Acredito na esperança dele. E também de outro colega de trabalho que está na Comissão, visivelmente desconfortável com o rumo que as coisas tomaram. Mais desolado do que furioso.
    E aí depois de 10 anos de Procon, não me furto a pensar: “Se não agora, quando?” “Se não nós, quem?”. Se com essa mobilização não dobramos quem está em cima agora, vamos dobrá-los algum dia? O que os girondinos ouvirão dos jacobinos daqui a alguns poucos meses quando forem convocá-los a aderirem à nova campanha eu já ouvi hoje e não vou aqui reproduzir.
    Todo carnaval tem seu fim. Amanhã os rostos dos povos, nos postos, dos novos, dos rotos, dos loucos, dos poucos, dos moucos, dos soltos, dos revoltos, dos envolvidos, dos resolvidos, dos que deram ouvidos, darão as caras.
    Peguei o metrô lembrando do meu papelzinho lá na retaguarda: “É melhor ser feliz do que ter razão”. Todo o histórico do que já passei aqui me indicava que me decepcionaria com essa história toda. Aprendi a lição. Posso contribuir com futuras greves não comparecendo ao trabalho, mas não mais participando ativamente da manifestações.
    Tenho minhas razões e vou ser feliz com minhas convicções.
    Desculpa aí, Thiago, mas…
    Bora estudar?

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